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Publicação traz estratégias para estimular a participação feminina na conservação

No mês das mulheres, o Programa COPAÍBAS – Comunidades Tradicionais, Povos Indígenas e Áreas Protegidas nos Biomas Amazônia e Cerrado –, gerido pelo Fundo Brasileiro para Biodiversidade (FUNBIO), lança a publicação “A Questão de Gênero nas Unidades de Conservação – Um debate necessário e um chamado à ação”, que traz sugestões de estratégias em busca do aumento da participação feminina na gestão de Unidades de Conservação em seus conselhos gestores e a valorização e inclusão delas em atividades de gestão territorial.

O lançamento é resultado da formação em Gênero e Meio Ambiente promovida pelo Programa voltada para os gestores das 21 unidades estaduais de conservação parceiras e suas equipes. As ações buscam dar visibilidade à necessidade de reconhecimento do papel das mulheres na gestão de Unidades de Conservação. No caso dos 21 parques estaduais apoiados pelo COPAÍBAS, por exemplo, 21% dos profissionais que estão à frente da gestão são mulheres e houve um aumento de 22% de participação feminina nos conselhos gestores, em relação ao início do Programa, em 2020. 

A publicação traz sugestões práticas e estratégias possíveis para alcançar essa maior participação das mulheres na gestão. São dicas como a criação de ciclos de formação continuada para as equipes, ampliando assim o conhecimento sobre as questões de gênero; criação de normativas internas, seja nos órgãos ou conselhos gestores, que garantam a paridade de gênero; até soluções mais simples como a marcação de reuniões em horários viáveis para a participação feminina, evitando que possam coincidir com compromissos majoritariamente delas, como períodos de entrada e saída escolar. 

Além da publicação, o COPAÍBAS lança também este mês o podcast “Marias Guardiãs das Florestas”, que dá voz às conselheiras e defensoras da conservação sobre assuntos como gênero, território e identidade, divisão justa do trabalho doméstico, entre outros temas. Entre as participantes estão Ângela Mendes, atual coordenadora do Comitê Chico Mendes e filha do ambientalista e seringueiro, Chico Mendes, morto em 1988, em Xapuri, no Acre, e Geovânia Machado, quilombola, pesquisadora e coordenadora do Conselho Nacional das Populações Extrativistas do Maranhão.

Mulheres na conservação da biodiversidade

O protagonismo feminino na conservação da biodiversidade ainda é um desafio até mesmo para mulheres mais experientes nas causas ambientais como Ângela Mendes, de 55 anos.  Trabalhando desde os anos 1980 para dar continuidade ao legado do pai, hoje ela atua dando voz às mulheres e jovens extrativistas dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, atuando como conselheira titular pelo Comitê Chico Mendes. “Até hoje, na minha história mais recente como protagonista da causa ambiental, ainda é difícil me fazer enxergar no papel que eu desejo desempenhar. Por isso, trabalhamos no fortalecimento da gestão feminina, como estratégia da nossa atuação, fortalecendo as organizações de base, como a Associação Feminina Força da Mulher Rural do Rio Liberdade (Associação Mulher Flor)”, diz.

Ângela foi criada pelos tios em Rio Branco, na capital do estado do Acre, e, quando retornou ao interior da floresta, na região do Xapuri, local onde nasceu, viu seu pai ser assassinado. Na época ela estava grávida.  “Os companheiros não me aceitavam na luta junto com eles e achavam que eu não podia levar o legado do meu pai por ser uma mulher”, conta.

Historicamente, a presença feminina à frente da gestão de Unidades de Conservação sempre foi menor. Mas Grazielly Costa, de 34 anos, não se deixou intimidar e batalhou para ser a segunda mulher à frente da gestão do Parque Serra Nova e Talhado, em Minas Gerais, a 5°Unidade de Conservação mais visitada do estado de Minas Gerais. Só em 2024, foram 55 mil visitantes. 

Nascida e criada no entorno do parque, no município de Rio Pardo de Minas, ela conhece cada canto da unidade, percorrendo, diariamente, longas trilhas. Também aprendeu a manusear drones e faz questão do uso do Equipamento de Proteção Individual (EPI) por toda sua equipe. “Liderar uma equipe masculina no interior de Minas Gerais, que ainda carrega uma cultura conservadora, é um desafio enorme. No início, duvidaram da minha capacidade e tive que escutar muitas piadas sem graça. E, ainda hoje, me questionam sobre como ser mãe de duas crianças e circular por mais de 50 mil hectares para cuidar do Parque e das comunidades do entorno”, conta a gestora, que está no cargo há quatro anos.

O papel delas nos Conselhos

Os conselhos são os espaços oficiais de participação social junto às Unidades de Conservação, que possibilitam uma melhor integração com as comunidades. Em Goiás, no Parque Estadual Terra Ronca, Andréia Xavier, mãe de dois filhos, se tornou uma referência para as mulheres do entorno, promovendo eventos na área de saúde da mulher e ampliando o conhecimento delas sobre o território. Ela já atuou na equipe de apoio do parque, e, hoje, ocupa o cardo de diretora do Conselho de Turismo do município de São Domingos “Criei esse vínculo e fui bem aceita por ser uma mulher, em comunidades onde as mulheres são maioria. É um degrau que elas sobem quando conhecem seu território e se sentem pertencentes a ele. Fizemos um diagnóstico e descobrimos que as mulheres do entorno do parque tinham baixa autoestima e nunca haviam saído dos seus quintais. Não conheciam nem o município do entorno de São Domingos de Goiás”, conta.

Andréia também é museóloga e agente cultural. Ela busca fortalecer a cultura popular e tradições com as mulheres raizeiras e benzedeiras da região, além de promover com os mais jovens a educação do patrimônio natural do parque e do entorno.

Já no Parque Estadual Serra do Cabral, em Minas Gerais, o envolvimento das mulheres da região é expressivo. No ano passado, 21 mulheres participaram dos conselhos e a expectativa desse ano é aumentar. A arqueóloga Christiane Lopes, que possui terras no entorno do parque há cinco gerações, é uma delas. Sua preocupação é a proteção das lapas e abrigos, que registram as pinturas rupestres da fauna e flora da região. “A grande relevância da pintura que temos aqui é que elas estão presentes em uma paisagem intocada no parque e entorno. São pinturas datadas de 3.500 anos. É difícil explicar para a população a necessidade de preservação desse espaço com as restrições de acesso. Recentemente, aumentou o fluxo de visitações em lapas na área de amortecimento ambiental, que é uma faixa de proteção que envolve uma unidade de conservação. Isso também aumenta o risco para a conservação, com a presença do garimpo de quartzo”, conta Christiane que nos últimos 25 anos, também atuou como consultora em projetos de licenciamento ambiental e participou em diretorias da Sociedade de Arqueologia Brasileira.

A publicação “A Questão de Gênero nas Unidades de Conservação – Um debate necessário e um chamado à ação” já está disponível na biblioteca do site do Programa COPAÍBAS e do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Já o podcast “Maria Guardiãs das Florestas”, com quatro capítulos, pode ser acessado pelo canal do FUNBIO no Youtube. As entrevistadas pelo podcast são: Maria Eunice Machado (extrativista do Conselho Nacional das Populações Extrativistas – CNE), Kátia Santos de Mello (Conselheira RESEX Chico Mendes), Leide Aquino e Ângela Mendes (RESEX Chico Mendes), Laiane da Costa Santos (Sindicato dos Trabalhadores RESEX Chico Mendes, Coletivo Varadouro), Mariana Bogea (Assistente Social APA e Mosaico Tucuruí), Marina Moss (Conservação e Turismo Sustentável), Geovânia Machado (Quilombola Coordenadora de Produção e Movimento de Mulheres Maranhão) e Domingas Alves (produtora rural). 

Crédito da imagem: arquivo pessoal Grazielly Costa